O chamado da natureza (Call of the wild) de Jack London

Trabalhar com edição de livros me faz passar por novas experiências literárias todos os dias. Depois de tantas leituras, consegui perceber que muitos livros de qualidade são escritos de forma simples, sem frescura ou preciosismo. Não quero, com essa afirmação, desmerecer o trabalho de diversos autores que escrevem difícil. Essa é uma característica que precisa estar presente na literatura, mas que se limita a poucos leitores efetivamente.

Contudo, gostaria de dizer que livros simples, não são, necessariamente, mal escritos. O que busco dizer é que, muitos dos meus livros preferidos foram escritos com simplicidade. E o que os faz estar em alta conta no meu panteão é o fato de conseguirem tocar não apenas o meu, mas o coração de milhões de pessoas pelo mundo.

Sobre que livro estou falando?

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Calma, prezado leitor. Sei que também devo ser simples. Então, tudo bem, já que insiste, vou direto ao assunto e procederei a resposta. O livro que escolhi para esse domingo pós-carnaval é O chamado da natureza. Um livro simples e intenso, escrito pelo escritor norte-americano Jack London.

Nesse momento, alguns de vocês devem estar se perguntando: “Será que eu conheço esse livro”. Os afortunados dirão que sim, e os futuros afortunados dirão que devem ler o mais rápido possível. Porém, existe um motivo para que alguns tenham a impressão de já o conhecerem.

Sean Penn, em 2007, roteirizou e dirigiu um dos filmes mais impressionantes dos últimos anos. Into the wild (Na natureza selvagem) é também um livro do jornalista Jon Krakauer e conta a história de um rapaz que, após se formar na universidade, decide trocar de nome, não ter mais contato com a família e partir para uma jornada ao Alasca, de modo a viver como um ser totalmente integrado à natureza.

E adivinhem qual era o seu livro/companheiro de viagem? Acertou quem disse: O chamado da natureza!

Entretanto, esse texto não foi escrito para falar do filme do Sean Penn – que por sinal, possui uma trilha sonora espetacular feita por ninguém menos que o famigerado Eddie Vedder – ou do livro do Jon Krakauer. O autor do dia se chama Jack London.

Em O chamado da natureza, o escritor californiano convida o leitor a embarcar na vida de Buck, um cão doméstico cuja existência era pacatamente levada no seio de uma família amorosa. Lá ele tinha tudo do bom e do melhor. E o narrador – em terceira pessoa – faz questão de mostrar características de realeza na figura do portentoso cão. Porém, a época é agitada. O ano é 1896 e, no Alasca, a corrida do ouro faz com que milhares de pessoas busquem fontes de renda variadas, inclusive o contrabando de cachorros que, por sua vez, serviriam para caçar, guardar e puxar trenós.

Como lhes falei, Jack London conta essa história de modo simples, no entanto, utiliza artifícios interessantes. Um deles é a postura do narrador que, embora use uma linguagem humana, proporcionando o nosso entendimento, transmite a visão de um cachorro. Essa percepção fica clara desde as primeiras linhas de texto, mas ganha força quando Buck começa a ser maltratado. Dessa forma, o narrador descreve os humanos sempre com um aspecto sujo e maléfico.

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Aos poucos, os leitores vão penetrando na vida de Buck, descobrindo as transformações que sua vida passará, após a transição de uma vida luxuosa para um perrengue total. E é a partir dessa perspectiva dolorosa que o personagem principal passa por sua transformação.

Quando ele aceita que as intempéries da vida têm um papel importante na evolução do ser.

Viver acomodado e confortável dentro de apartamentos, dirigindo carros com ares-condicionados e receber dignos salário a cada fim de mês vai afogando aos poucos a relação que temos com a natureza. Caçamos, sim, mas condicionamos as nossas vidas ao mesmo comportamento cotidiano. Com isso, não damos espaço para surpresas. Surpresas essas que só podem ser identificadas quando escutamos e atendemos ao chamado da natureza.

Buck sofreu com o afastamento de sua vida rica e abastada. Foi viver, contra sua vontade, no Alasca, servindo de puxador de trenó para pessoas que não se importavam com sua felicidade. Entretanto, é nesse cenário que ele desperta, e descobre quem ele verdadeiramente é. Um líder de matilha.

Quanto mais a natureza atrai Buck, mais ele é absorvido pelo coletivo natural. Sua presença na terra gelada do Alasca se mistura com a perfeição do gerar/destruir, do nascer/morrer, e conforme a necessidade o obriga a interagir com a natureza, ele se reconhece e se torna indomável.

No filme de Sean Penn e no livro de Jon Krakauer, Christopher McCandless é o protagonista de uma história real. Como lhes disse alguns parágrafos atrás, ele decidiu abandonar tudo para iniciar uma jornada ao Alasca. Além disso, ele decide que deve viver apenas com o necessário para garantir a sua sobrevivência, pois acredita que, assim, seu amadurecimento como ser humano pode ser conquistado.

Visto dessa maneira, há como negar que sua principal fonte inspiradora se chamava O chamado da natureza? Bem, digníssimos leitores, alguns livros são influências mais radicais do que outros. Em qual você considera que o livro do Jack London se encaixa?

*Jack London nasceu em 1876 e quase foi abortado. Sua mãe tentou suicídio e ele teve que ser criado por uma ex-escrava. O universo literário agradece por sua vida, pois, sem ele, não haveria livros como O lobo do mar (1904) e Caninos brancos (1910).

 

Texto originalmente editado por Jader Pires e publicado em 15 de fevereiro de 2013, no site Papo de Homem.

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