Antropofagia, mestiçagem e estranhamento: tradução em (dis)curso

“Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.”
(Manifesto, 1928)
O ano de 1922 foi bastante emblemático para o Brasil. Ainda com a democracia engatinhando e a literatura passando pela adolescência, foi nesse ano que ocorreu aquela que se tornaria uma das mais importantes semanas na história do país, que ficou conhecida como a Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922. Idealizada pelo pintor Di Cavalcanti e liderada por personalidades destacadas daquele período como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos, entre outros, a Semana de Arte Moderna tinha como proposta principal abandonar os valores estéticos antigos e analisar as novas tendências artísticas europeias para que elas fossem absorvidas, mas aplicadas com novas bases no cenário brasileiro.
Essa absorção foi alvo de graves reflexões, uma vez que os artistas da vanguarda brasileira buscavam entender de que maneira as influências europeias poderiam entrar no país, mas não exercer a predominância a que estavam acostumadas. E quem melhor explorou esse caminho dentro da literatura foi Oswald de Andrade, com seu Manifesto Antropófago, assinado pelo escritor paulista em 1928 e legítimo fruto das ideias da Semana de Arte Moderna. Nele o escritor paulista aponta que a arte deveria se configurar em um movimento crítico, de modo a praticar a “devoração/digestão/transformação” de todas as ideias estrangeiras, para fazê-las ressurgir com características genuinamente nacionais. E já que a arte mistura os processos crítico-teórico e artístico-criativo em todas as suas camadas, também é possível verificar as mesmas características na tradução.
Tendo em vista uma melhor exposição sobre o tema, o artigo de Alice Maria Araújo Ferreira e Ana Helena Rossi, Antropofagia, mestiçagem e estranhamento: tradução em (discurso) é essencial. Nele as pesquisadoras desenvolvem caminhos sobre a antropofagia e suas relações com a tradução, levando os leitores ao cenário que se formou na Semana de Arte Moderna de 1922 para entender a importância do Manifesto Antropófago na definição do “fazer” tradução e de como sua execução deve ser pensada, propondo um “deslocamento que permite pensar esse movimento crítico como paradigma possível para se refletir a Tradução”.
As pesquisadoras enfatizam, desde o princípio do artigo, o fato de Oswald de Andrade destacar a contradição violenta entre as culturas presentes no Brasil, que, no decorrer da história, dificilmente se misturaram de maneira harmoniosa. Como forma de contestação ao passado colonial do país, a antropofagia, de características aprioristicamente irracionais, surge como “signo de devoração crítica do outro.” (P. 37).
1. Movimento antropofágico: vanguardas e conceitos
Apesar de toda a importância que a Semana de Arte Moderna de 1922 teve para a construção intelecto-cultural do Brasil, foi o movimento antropofágico o responsável por seu prolongamento, gerando efeitos até os dias atuais. Sobre isso, as pesquisadoras destacam os dizeres de François Laplantine (2001): “(…) uma revolução estética inseparável de uma busca crítica que vai abalar profundamente a cultura brasileira no sentido de colocar em questão paradigmas sociais, políticos e estéticos, entre outros.”
Na sua matriz conceitual, o movimento antropofágico consistiria em retomar os atos canibalísticos indígenas, mas no sentido de transformação da cultura brasileira após a absorção de influências estrangeiras. E, apesar de terem sido perseguidos, assim como ocorreu nos Estados Unidos ou no México, ninguém melhor do que os Tupinambás, principal grupo que habitava o litoral brasileiro quando os portugueses chegaram, para representar o papel original de herança cultural.
Com esse cenário construído, as pesquisadoras passam a questionar sobre como pensar os índios Tupinambás no que diz respeito ao “canibalismo” e à “integração” da cultura brasileira. E a resposta delas surge com urgência, quando deixam claro que esse índio não é o romântico “bom selvagem”, de José de Alencar, mas sim o “’mau selvagem’, desobediente que se entrega ao comunismo sexual e sobretudo canibal” (P.38). Dessa forma, a exemplo dos tupi-guaranis que devoravam seus inimigos e se apropriavam de seus atributos, “num processo de catharsis”, o movimento antropofágico receita que a energia vital do estrangeiro seja devorada.
A força imagética dos índios devorando seus inimigos, encampada na vanguarda artística do começo do século XX, gerou uma crítica ao que deve ser construído como arcabouço cultural da nação. As pesquisadoras enfatizam que essa não é hipótese de recusa identitária. Pelo contrário, as influências, especialmente a lusitana e francesa, devem ser “devoradas e assimiladas”, resultando num processo “desierarquização dos valores do antigo colonizador”. (P. 39). Nesse caso o Brasil, nutrido de inúmeros referenciais, transformaria as culturas estrangeiras e geraria uma nova e inédita forma de manifestação.
Em virtude de propor que, mesmo que de maneira simbólica, um cultura seja “devorada”, surgiram alguns contrapontos teóricos, destacados pelas pesquisadoras, em particular o posicionamento de François Laplatine, que questiona sobre a legitimidade do termo “mestiçagem” no tocante ao fato de que, para o outro existir, o primeiro deve ser destruído. Sobre essa perspectiva, as autoras mostram que a resposta está no poder de manifestação da alteridade na construção da identidade coletiva, pois “Suas qualidades são levadas a misturar-se e o deglutidor, ao final do processo, já não é mais o mesmo.”
Nesse ponto o artigo propõe que exista uma ruptura, um abandono do sistema ontológico, no qual a Unicidade é fator preponderante na identidade do ser. Sem o Uno, resta à alteridade, por meio das manifestações ético-existenciais presentes no Manifesto Antropófago, subverter “o sentido direcional dos portugueses em relação aos escravos, como também as relações dentro da sociedade brasileira com sua herança escravocrata. É um manifesto de euforia (…) em que o Uno deixa de ser Uno para ser múltiplo.” (P. 41).
Sendo múltiplo, não há que ser definida a mestiçagem como um processo de substituição. Ela deve ser vista como interpretação e tradução, no sentido de incorporar reflexões, abrindo perspectivas totalmente novas sobre as noções do que se define como “fonte”, “influência” e “origem”. A tradução não pode mais ser vista como uma mera reprodução de algo externo, mas sim a partir do “entre” no sentido de espaço construído a partir de inúmeras devorações anteriores.
2. Indo além das dicotomias: o espaço “entre”
É comum pensar a tradução como um processo dicotômico, onde sempre existem territórios separados em que um exerce superioridade sobre o outro, como se o “Outro”, ao ser traduzido, fosse apagado. E nesse ponto do artigo, quando as pesquisadoras se aproximam da ideia central, ética em alteridade, é possível entender a tradução como ato subversivo, em que o outro “não remete mais ao mesmo, mas a um outro outro, sujeito instável em sua historicidade e em sua discursividade.” (P. 43)
Por ser, em sua origem, interdiscursividade e multiplicidade, a tradução ocupa lugar privilegiado nessa alteridade, uma vez que suscita infinitas multiplicações textuais. Nesse sentido, as pesquisadoras citam Alex Nouss (2001) ao definir a tradução como um devir, que se encontra no espaço entre o mesmo e o outro. A partir desse pensamento, o artigo encontra seu ponto-central: “Ao traduzir o outro me aproprio dele devorando-o, sem, no entanto, me transformar no outro, nem transformá-lo em mim mesmo, mas me transformando com o outro e transformando-o num devir instável, em formação, mestiço.” P. (45)
A tradução como processo antropofágico teria a prerrogativa de criar diferenças ao devorar o diferente. Em linguagem, não há como definir origens e fontes quando tudo foi retransformado múltiplas e sucessivas vezes, gerando infinitos outros.
3. Ezra Pound e Haroldo de Campos: paradigmas no/do “entre”
Em direção ao fim do artigo e para mostrar ocorrências práticas das indicações teóricas e pontos de convergência na afirmação de que a tradução é um espaço de mediação “entre” as línguas, as autoras usam as posições de Ezra Pound, que subverteu as dicotomias entre língua “contemporânea” e “antiga”, e Haroldo de Campos, que via a tradução como uma compreensão do projeto intelectual do autor e uma tentativa de reconstrução da estrutura linguística em outra.
Portanto, na medida em que precisa observar todas as nuances possíveis em determinada linguagem (histórica, social, cognitiva etc.) o tradutor torna-se crítico, torna-se responsável pelo devir transformador, realizando um ritual antropofágico no espaço “entre” quando revela as fronteiras da tradução e as anula.

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