“A Filosofia da Composição”, de Edgar Allan Poe

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Ilustração de VIctor Octaviano para a edição colaborativo do livro O Corvo, publicado pela editora Empíreo em 2015

 

Por Oscar Nestarez

Edgar Allan Poe escreveu “A Filosofia da Composição” com a evidente intenção de revelar as costuras e os mecanismos de sua composição literária, de refazer o trajeto de seu processo criativo. Publicado em 1846 — um ano após o surgimento do poema “O corvo”, obra mais famosa do autor estadunidense –, o artigo tem como objeto de estudo essa mesma obra. E a escolha não foi aleatória: o próprio Poe revela, após algumas considerações iniciais, que o motivo pelo qual a elegeu foi o fato de se tratar de seu trabalho “mais geralmente conhecido”. E, feita a escolha, ele retoma, passo a passo, o caminho percorrido até o desfecho de sua composição – desta forma revelando suas próprias concepções sobre objeto literário.
O artigo é iniciado com algumas considerações do autor sobre o método composicional vigente em sua época. Poe discorre brevemente sobre o costume de escritores que buscam inspiração na história ou no cotidiano – costume que ele considera um “erro radical”, para, a seguir, justificar o porquê, já conduzindo o leitor pelos bastidores de sua própria criação. Trata-se, logo fica evidente, de um processo de natureza profundamente matemática, elaborado a partir de escolhas; e todas estas escolhas, como Poe enfatiza inúmeras vezes, são cuidadosamente calculadas e racionalizadas. O autor chega a afirmar “que o trabalho caminhou, passo a passo, até se completar, com a precisão e a sequência rígida de um problema matemático” (p. 02).
A primeira das escolhas diz respeito ao “efeito”. Procurando manter sempre a originalidade em vista, o autor se pergunta: “Dentre os inúmeros efeitos, ou impressões a que são suscetíveis o coração, a inteligência ou, mais geralmente, a alma, qual irei eu, na ocasião atual, escolher?” (p. 01). A resposta para a questão está um pouco mais abaixo no texto, quando Poe afirma que, como efeito intencional, pretendia agradar tanto o público em geral como a crítica.
A partir daí ele vai erguendo, cônscio e vagaroso como quem sabe exatamente aonde quer chegar, o monolito da obra em questão. Cada nova escolha configura um componente fundamental nesta construção, que permanece, até os tempos atuais, firme em sua beleza anoitecida, recortada contra o tempestuoso horizonte poético.
A próxima consideração é relacionada à extensão do poema. Aqui, Poe revela suas concepções sobre o poder da “unidade dramática”, que acredita ser essencial para o prazer da leitura – prazer este que, como se verifica em outros textos críticos de sua autoria, configura o objetivo essencial de sua escrita. Ele então aponta para as interferências dos “negócios do mundo” na fruição da obra, caso ela seja extensa demais (no caso de um poema, extenso a ponto de exigir uma leitura espalhada por ao menos “duas assentadas”). Mais adiante, o autor reitera que a extensão de um poema deve ser calculada, “pois é claro que a brevidade deve estar na relação direta da intensidade com o efeito pretendido” (p. 02); em outras palavras, tão curto quanto poderoso. Diante de todas estas considerações, somadas às do efeito intencional, Poe conclui que a extensão conveniente para seu poema deveria ser de cerca de cem versos; “de fato, ele (‘O corvo’) tem cento e oito” (p. 02).
A escolha seguinte diz respeito à impressão a ser causada pelo texto. E o aforismo que segue é novamente revelador sobre o entendimento de Poe não apenas sobre a linguagem poética, mas sobre a literatura em geral: trata-se da frase “a Beleza é a única província legítima do poema” (p. 03). Esta beleza não é, como o autor deixa claro, uma qualidade, mas sim um efeito de movimento, a “intensa e pura elevação da alma” (p. 03).
Estabelecido este território sobre o qual o poema se erguerá, o autor procede ao tom com que esta beleza se apresentará ao mundo; e, quase que imediatamente, a tristeza surge como o matiz mais adequado, em um pensamento que é manifestado através de outra máxima: “a melancolia é (…) o mais legítimo de todos os tons poéticos” (p. 03).
A deliberação seguinte é de ordem formal: Poe se dedica à busca “de alguma nota-chave na construção do poema, algum eixo sobre o qual toda a estrutura devesse girar” (p. 03). Esta quête rapidamente o leva ao refrão, um “efeito artístico” de sentido teatral universalmente utilizado na época, cujo prazer “somente se extrai pelo sentido de identidade, de repetição” (p. 03). E tal estribilho deveria ser breve para que não apresentasse dificuldades em seu enunciado, o que também abriria caminho para muito mais possibilidades de “variação de aplicação”; a conclusão óbvia é de que o refrão deveria ser composto por apenas uma palavra.
Poe então reflete acerca da natureza desta palavra; pondera que, para ter força, deveria ser sonora e de ênfase prolongada. Por isso, opta por uma palavra que termine com a mais extensa das vogais (em inglês), a letra O, e a consoante mais aproveitável, R. Isto posto, e diante do tom escolhido para o poema, não encontra dificuldades para eleger o termo “Nevermore” como o solitário componente do refrão.
A seguir, procede a uma justificativa, um pretexto para a repetição da palavra. O autor percebe, então, que a dificuldade para tal estava no fato de que o estribilho não poderia ser repetido por uma criatura racional. Assim, escolheu uma criatura não racional, porém capaz de falar, para repeti-lo incessantemente. Pensou primeiro em um papagaio, mas logo a figura agourenta do corvo, absolutamente adequada às decisões já estabelecidas, surgiu como a ideal.
Faltava, após estas deliberações, um motivo para que cada estrofe do poema se concluísse com tal palavra. Poe então começa a repassar, mentalmente, os temas melancólicos para encontrar aquele que lhe serviria melhor. A resposta mais uma vez não tardou a aparecer: a morte de uma bela mulher. Segundo o autor, esta tragédia “é, inquestionavelmente, o tema mais poético do mundo, e, igualmente, a boca mais capaz de desenvolver tal tema é a de um amante despojado de seu amor” (p. 04). Foi então que, após todas estas escolhas, Poe deitou a pena ao papel pela primeira vez, para criar aquilo que considera ser o clímax dramático da obra:
Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”

O autor enfatiza que este deveria ser o pináculo de sua criação. Com efeito, admite que, caso tivesse composto estrofes antecedentes que excedessem em carga dramática, não hesitaria em modificá-las para diminuir seu impacto.
Mais adiante, Poe aborda a questão da localidade onde se passaria a ação dramática. Cogita, inicialmente, uma floresta, mas enfim decide que um quarto, um paramentado e sereno quarto, afigurava a melhor opção, já que teria para o poema o mesmo efeito de um quadro – restringindo-o. Além disso, o quarto também teria ares de uma espécie de santuário dedicado à permanência da amada morta, erigido pelo amante.
O que se segue, então, são algumas considerações sobre o clima e outros detalhes da narrativa: Poe decidiu fazer a noite tempestuosa para que o corvo tivesse um motivo para buscar refúgio no quarto tranquilo; e escolhe fazê-lo pousar no busto de mármore de Palas Atena para efeitos de contraste entre a brancura da pedra e a penugem negra da ave.
Então ele reflete acerca da questão do fantástico que envolve a entrada do corvo em cena: o amante confunde o bater de asas com pancadas na sua porta, e chega a cogitar se tratar do espectro de sua amada. Mas, logo que se apercebe da presença do corvo, o pobre solitário se acalma e meio que sorri, divertido com o acontecimento. Começa então a questioná-lo de forma algo zombeteira, como que para ocupar o tempo.
Contudo, logo percebe que a resposta da ave é sempre a mesma – e aqui temos, no entendimento do próprio Poe, um momento chave do poema: aquele em que o amante não mais zomba, não mais vê qualquer indício fantástico em tudo aquilo, e, certo de que ao final de seus questionamentos sempre se seguiria a inexpugnável máxima, passa a se torturar terrivelmente, propondo “questões tais à ave que só lhe trarão o máximo da volúpia da tristeza, gra¬ças à esperada frase” (p. 07).
Poe então conclui a revisita à construção de sua catedral noturna com alguns dos últimos versos que a compõem:

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

São estes os últimos degraus que levam o personagem às profundezas da melancolia. Conduzido pelo simbolismo da ave e pelos ecos indiferentes de seu crocitar, impelido pela insaciável sede de explorar os meandros da dor da perda, o amante empreende uma descida sem fim. E o som de seus passos reverbera há cento e setenta anos, em uníssono com o derradeiro “nevermore”. São passos que descem — e que, graças ao gênio calculista de Poe, acompanham os de nossa alma, que sobe, numa elevação igualmente infinita.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

POE, Edgar Allan. Poemas e Ensaios. (Trad. Oscar Mendes e Milton Amado).
São Paulo: Globo, 1999. 3. ed. revista.

WEBGRAFIA:
POE, Edgar Allan. O Corvo. (Trad. Machado de Assis).
Disponível em: http://pensador.uol.com.br/frase/NTM5Mzg0/. Acesso em 22 de abril de 2014.

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