A bagagem do viajante

Bagagem-Viajante

Para começar essa reflexão sobre alguns textos presentes no livro A bagagem do viajante, é necessário entender o português José Saramago como um dos escritores que se estabeleceram no panteão dos arautos da literatura universal. Embora ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura, o maior galardão do meio literário mundial, em 1988, seja, por si só, um reconhecimento de absoluto destaque, nem todos os premiados recebem tanta referência como Hemingway, Garcia Márquez, Faulkner, Camus e o próprio Saramago. São poucos aqueles que alcançam popular e verdadeiramente o status de clássico, mesmo que todos os premiados possuam qualidades inquestionáveis dentro de seus estilos.
Consagrado pelos romances que escreveu, Saramago mostra ao leitor, em A bagagem do viajante, toda a desenvoltura poética ao escolher o formato das crônicas para manifestar o seu páthos, no sentido grego de manifestar culturalmente paixão, excesso e ligações afetivas. O livro, publicado como volume único em 1973, reúne textos escritos em jornais portugueses entre os anos de 1969 e 1972, nos quais o escritor português propõe uma viagem pela selva da vida contemporânea. Abordando assuntos diversos, ele ataca as mentiras da política, contempla um jardim de rosas em meio a construções decadentes e convida o leitor a olhar de perto a oficina de um escultor.
Em “De quando morri virado ao mar”, a figura central é um andarilho feliz, no cenário construído durante um dia de sua viagem, desde o momento em que inicia a jornada, deixando as margens de uma lagoa, depois de acordar e ver o nevoeiro rolar “em flocos soltos, como se cuidadosamente o sol os varresse até nada mais ficar entre a água e o céu azul.” (P. 25). Apesar de todas as dificuldades concernentes a percursos como o do personagem, é importante destacar que ele manifesta – pois a crônica é narrada em primeira pessoa – satisfação e alegria, visto que “foi assim que sempre gostei de caminhar, vinte ou trinta quilômetros sem um descanso.” (P. 25). Conforme o dia passa, é natural que o andarilho sinta o peso das dificuldades, mas nada que o impeça de continuar a caminhada. Apesar do cansaço e do desânimo, ele encontra dentro de si a energia que precisa para meter-se novamente na estrada. Contudo, uma pergunta dá o teor da jornada: “Que eu faço aqui?” (P. 27). Com ela o personagem percebe que a cada passo dado ele já não é mais o mesmo. Ele está morto ali, deitado e virado ao mar, apenas para ressurgir como um novo ser, cheio de sombras e confusão e pronto para enfrenta-los novamente.
A mesma mensagem desponta em “No pátio, um jardim de rosas”, mas com um sentido diferente. Nessa crônica Saramago, por meio de um narrador também em primeira pessoa, aponta para um sujeito que, ao cair da tarde e depois de uma jornada completa de trabalho, gosta de andar distraidamente pelas ruas da cidade. O destaque fica por conta do verbo “gostar”, uma vez que ao personagem interessa ser tal como um “microscópio assestado às pessoas” (P. 79), pronto para “penetrar na cidade como se mergulhasse num fluido resistente” (P. 79). Nesse ponto é importante inferir os traços de flânerie , pois o narrador desce uma rua estreita, cheia de carros e buzinas, e encontra, em seus intervalos, “uma paz quase rural”, oferecendo um relevante contraponto, no qual o “trânsito” representa claramente a um fator de estresse em potencial, e o “rural” se conecta à fonte de superação e redenção. E é justamente dentro de uma construção em ruínas, repleta de ratos, que o narrador vai encontrar, através de seu olhar de flâneur, um “jardim de rosas” no que seria, para um olhar desatento e pouco poético, apenas uma frase: A LENA AMA O RUI. Algo simples se torna sublime aos olhos do narrador, que constrói rapidamente três possibilidades sobre a autoria e o desenrolar da história que envolve Lena e Rui.
Em “A oficina do escultor” Saramago é mais sutil com o leitor. Com o olhar de um visitante, o narrador perpassa, tentando captar todos os detalhes possíveis, pelas extensões da sala e vai até os materiais que o escultor usa para se abastecer de conhecimentos e executar sua poiésis . Assim, uma simples oficina “transforma-se em sala de concerto, em catedral, em vulcão” para o viajante detentor de visão poética.

jose-saramago.jpg
A literatura de Saramago, seja a do romance ou a da crônica, sempre guarda reflexões mais profundas do que a primeira leitura indica. Em A bagagem do viajante, os conceitos benjaminianos podem ajudar a direcionar os leitores mais atentos, especialmente quando expõe nos personagens-narradores o caráter do flâneur (representado na poesia por Charles Baudelaire), como um contraponto aos indivíduos-máquina que a sociedade de consumo projeta no comportamento humano ao se apropriar da arte, por meio da reprodutibilidade técnica. Essa posição crítica de Saramago é encontrada também em seu romance Ensaio sobre a cegueira, de 1995, cuja ideia central gira em torno de uma cegueira coletiva que atingiu gradativamente o mundo inteiro, menos uma mulher. Apesar de todas as pesquisas tecnológicas, ninguém descobre a causa do fenômeno, apenas sabem que, diferente da patologia clínica, que gera um fundo preto na visão de quem sofre, a cegueira de Saramago é branca. Considerando a psicodinâmica das cores é possível entender aonde o escritor português queria chegar. De modo resumido, o branco é a junção de todas as cores e o preto é a ausência de cores. Então a cegueira branca de seu livro pode ser associada a uma cegueira do excesso, no tempo em que hiperestímulos provocam comportamentos mecanizados nas pessoas, quando as obrigam a estar em constante movimento, perdendo seu tempo de contemplação, atributo importante para a construção do indivíduo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s